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Será que o YouTube vai acabar com a qualidade do áudio profissional?

eldogomes.com.br
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Passei três dias fora do estúdio esta semana e tive que gravar algumas locuções minhas e da Simone Kliass com o nosso kit de viagem: um Apogee MiC ligado num iPhone dentro do carro. Toda vez que uma produtora ligava para pedir gravação eu explicava que estávamos longe do estúdio. Antigamente (digo, um ou dois anos atrás) era normal perder job ou outro porque eu não tinha como gravar a locução num estúdio profissional. Mas durante a nossa viagem todas as produtoras falavam a mesma coisa: “Pode gravar com o Apogee mesmo, está ótimo”. A Simone até gravou comercial nacional e a produtora ficou satisfeito com a qualidade do som. (Neste caso passei um tempo montando uma cabine e tratando o áudio).

Sou muito chato quando se fala de qualidade de áudio. Fiz investimento pesado em tratamento acústico e mesmo no nosso home studio faço questão de usar os melhores equipamentos: um microfone Neumann U87 com uma interface Apollo da Universal Audio. Como falo com frequência aqui neste blog, quero que a qualidade do nosso áudio seja uma das diferenciais que oferecemos para os nossos clientes. Então dá para entender porque fico preocupado quando vejo que cada vez menos as campanhas publicitarias exigem áudio de qualidade 48hHz/24-bit captado com microfone condensador num espaço acústicamente tratado.

O que mudou nos últimos tempos? Porque a qualidade de áudio perdeu tanto a importância? Um dos grandes culpados, na minha opinião, é o YouTube. Na verdade quando falo “YouTube” me refiro a todos os plataformas usados para divulgar vídeos na internet, tanto o YouTube quanto o próprio Facebook e também sites como Vimeo e aplicativos como Twitter, Snapchap, etc. Mas como o YouTube é o maior de todos, vou jogar toda a culpa nele aqui neste post.

Em primeiro lugar, o YouTube mudou a maneira que ouvimos som. Quase sempre assistimos ao YouTube num computador ou num smartphone e a qualidade do som é alterada pelo alto falante do próprio dispositivo. Durante a minha viagem, por exemplo, tive que regravar alguns trechos de um job que eu tinha gravado no nosso estúdio. Tentei deixar o áudio que gravei na estrada parecido com o áudio original. Nos fones de ouvido eu percebia que o som era diferente; mas quando ouvi o áudio emendado no alto falante do meu laptop, não dava para perceber nenhuma diferença.

Em segundo lugar, o YouTube mudou o volume de trabalho e os prazos de entrega. Quando a televisão ainda era o maior plataforma de mídia, uma produtora de áudio tinha mais verba e mais tempo para criar campanha publicitária. A Simone comenta que quando começou a trabalhar como locutora ela às vezes negociava a reveiculação de campanhas nacionais que ficavam mais do que um ano no ar! Hoje se um comercial ficar mais do que um mês no ar já é muito. Na internet os prazos são ainda menores. As campanhas podem veicular por apenas algumas semanas — ou alguns dias. Com menos grana e tempo disponíveis, as produtoras de áudio acabam pedindo para o locutor gravar em casa mesmo e a qualidade do som deve ser boa, mas não tem que ser perfeita.

Em terceiro lugar, por causa da popularidade do YouTube, as pessoas estão cada vez mais acostumadas a ouvir áudio captado fora do estúdio. O YouTuber PewDiePie, por exemplo, conseguiu juntar 46 milhões de seguidores usando equipamentos como você vê na foto que acompanha este post. E olhem só a sala onde ele grava! Não tem nem espuma acústica nas paredes. Em comparação, o canal do YouTube da empresa alemã Neumann tem menos que três mil seguidores. Sendo assim, se o público de hoje passa o dia ouvindo o áudio de YouTubers, gamers, unboxers e outros web celebridades — tudo gravado com um microfone barato num ambiente com reverb — será que este mesmo público não vai estranhar o som de uma locução gravada dentro de um estúdio profissional?

Não estou incentivando a degradação do som profissional. Isso seria dar um tiro no próprio pé. Mas estou vendo tendência no mercado e fico curioso para saber até onde vamos chegar. Pessoalmente, vou continuar enviando som de qualidade profissional. Mas, talvez, vou começar a viajar mais, quem sabe? Estou curioso para ouvir as opiniões de outros profissionais do nosso mercado: os produtores de áudio, técnicos de som, criativos de agências e locutores publicitários. Vocês acham aceitável gravar num microfone inferior numa sala sem tratamento acústico, se for isso que o job pede? E como podemos defender e incentivar a importância do som profissional no mercado atual? O que vocês acham?

(*) Jason Bermingham é locutor publicitário e jornalista nativo do estado de Califórnia nos Estados Unidos. Com estúdio próprio em São Paulo, ele trabalha com a esposa, Simone Kliass, locutora membro do Clube da Voz.

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Por 📸@EldoGomes | Jornalista e YouTuber.