TECNOLOGIA

Museu da Diversidade Sexual traz exposição com guia-robô

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No fim do primeiro semestre de 2019, o Museu da Diversidade Sexual (equipamento do Governo do Estado de São Paulo administrado pela organização social de cultura APAA) inaugurou a exposição Devassos no Paraíso: o Brasil mostra sua cara, que contou a trajetória da construção das sexualidades e expressões de gênero no Brasil desde o período colonial. A exposição teve como inspiração o livro Devassos no Paraíso, do escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e defensor da comunidade LGBTQIA+, João Silvério Trevisan. A obra foi publicada originalmente em 1986, e um grande diferencial dessa exposição foi um guia-robô, com a personalidade do próprio Jão Silvério.

site do próprio Museu da Diversidade Sexual conta que, no ano de 2019, a Revolta de Stonewall, que deu início às lutas pelos direitos civis da população LGBTI nos Estados Unidos, está completando 50 anos, e foi a partir deste marco que o museu em questão lançou luz à história da comunidade no Brasil, desde o olhar de estranhamento do colonizador português aos costumes dos nativos no século XVI até fatos mais recentes, como a eleição de parlamentares declaradamente LGBTQIA+.

Tendo isso em mente, a proposta da exposição foi um mergulho na obra e pesquisa de João Silvério Trevisan, contando com suportes visuais, como documentos, matérias de imprensa, depoimentos em vídeo e ilustrações de Laerte e Paulo Von Poser. Tal como a obra que lhe inspirou, a exposição percorreu o caminho da construção da sexualidade e das expressões de gênero no Brasil, passando pelos povos originários, pelos colonizadores, pelos povos escravizados e pelos imigrantes, por figuras icônicas como Carmen Miranda, Madame Satã e Daniela Mercury, pelas travestis brasileiras fazendo a vida em solo europeu e pela perseguição e violência sofridas pelas travestis em solo brasileiro, o tratamento das sexualidades desviantes como caso de saúde mental, o fundamentalismo religioso e o ativismo.

De acordo com Ivan Romero, um dos idealizadores do projeto, sendo o Brasil um país ainda extremamente homofóbico e transfóbico, a existência de um museu que debata a temática da sexualidade e promova a arte e a cultura LGBTQIA+ é um marco no sentido de conscientizar a população e contribuir para a luta por reconhecimento e validação das vivências da comunidade, e os marcos da operação desse museu, que envolvem projetos para além da sede na capital, visam o enraizamento da possibilidade de uma sociedade mais informada, igualitária e tolerante.

Exposição inova com guia-robô

A tecnologia foi desenvolvida pela consultoria Certsys Labs, com base em uma persona real e ainda viva, sob a premissa de guiar o público durante a exposição, interagindo com os visitantes sobre a história do ativismo LGBTQIA+ no país, além de trazer curiosidades sobre a vida de Trevisan, inspiradas em seu livro que dá nome à mostra. É válido observar, também, que esse guia-robô também apresenta uma interface de voz, o que possibilita a acessibilidade do conteúdo para deficientes visuais. O projeto contou com a colaboração do Escritório Piloto da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – USP, que ficou responsável por testar os fluxos de conversa do chatbot.

A equipe conta que todo o trabalho para desenhar os fluxos de conversa foi realizado em conjunto com o próprio historiador e por responsáveis pelo conteúdo da exposição. Para acionar o chatbot, os visitantes só precisavam usar um QR Code disponível ao longo dos módulos da mostra, o que trouxe informações complementares aos documentos, imagens, ilustrações e depoimentos em vídeo.

Frente a isso, Ivan conta ao Canaltech que a ideia quando do desenvolvimento do robô era que fosse uma ferramenta adicional às usadas na exposição, uma com a qual os visitantes pudessem interagir e experienciar a temática de forma diferenciada. “Assim, o bot foi desenvolvido de forma a trazer novas informações e promover um meio não só textual ou gráfico, mas também conversacional”.

Ivan afirma que a equipe que desenvolveu o chatbot era composta por desenvolvedores e designers e, para que esse robô conseguisse de fato representar a persona do João Silvério e tivesse um caráter informativo e educaional, essa equipe precisou conhecer bem a história e a realidade da comunidade LGBTQIA+. Esse processo envolveu entrevistas, leituras e trocas de informações com a equipe do Museu e com o João Silvério. Como na equipe havia membros da comunidade LGBTQIA+, esse processo foi particularmente relevante num sentido pessoal e foi possível aproveitar de experiências pessoais no sentido de trazer humanidade ao chatbot.

O desenvolvedor do projeto ressalta, ainda, que o processo de ideação passou por entrevistas com o próprio João Silvério, além de pesquisas históricas e sociológicas e sessões de mapeamento de fluxo, sempre com o foco na experiência do usuário. Segundo ele, uma vez concluído esse processo, passaram ao desenvolvimento do software e dos atributos gráficos e ao final, realizaram alguns testes e concluíram a implementação com a disponibilização de QR Codes ao longo da exposição, sendo que esse processo todo levou cerca de um mês.

“É incrível imaginar que uma exposição baseada em um livro pode ter seu autor como um guia fixo, só que não pessoalmente. A criação deste chatbot parte da imersão no estudo aprofundado da obra do João Silvério, que possibilitou desenvolvermos uma ferramenta interativa extremamente didática para o público que visitar o museu, contribuindo para dar ainda mais visibilidade ao espaço e ao movimento LGBTI+”, conta Ruan Rossato, desenvolvedor de inteligência artificial e cientista de dados da Certsys.

Segundo Ivan, os educadores e organizadores do museu reportaram que a experiência do público com o Bot foi muito positiva. Citaram alguns exemplos de visitantes que, após interagirem com o robô, trouxeram perguntas e debates que levaram a momentos educacionais bastante frutíferos. Além disso, alguns usuários expressaram gratidão e sentimentos positivos ao chatbot durante a conversa e se sentiram tocados pela experiência de conversar e aprender pelo bot. Essa abordagem também gerou uma maior participação do público jovem com o conteúdo da exposição.

Tecnologia em favor de projetos LGBTQIA+

Uma vez questionado sobre como, daqui em diante, é possível usar mais tecnologia em favor de movimentos políticos sociais LGBTQIA+, Ivan aponta que já há importantes exemplos do uso de tecnologias em prol de movimentos sociais, como o caso da Beta, um bot feminista que tem conseguido promover ações de pressão política somente usando o Facebook Messenger.

“Conforme as populações marginalizadas e minorizadas conseguem entrar em espaços de aprendizado, pesquisa e desenvolvimentos de novas tecnologias, outros olhares sobre como essas tecnologias devem ser usadas são trazidos à mesa. Dessa forma, é possível esperar grandes avanços no campo da aplicação militante à tecnologia”, vislumbra Ivan, que aproveita para concluir que as possibilidades são inúmeras.

Por fim, em relação a futuros projetos, Ivan revela que ainda não há nada formalizado, mas ao início do trabalho com o museu buscam entender o real desafio em persistir a história da comunidade e usar a tecnologia para criar registros criativos. “Uma das possibilidades era um jogo em realidade aumentada envolvendo os territórios de eventos marcantes da história LGBTQIA+ com imagem e som trazendo de volta toda a história e luta da comunidade”, declara.

FONTE: CANALTECH

Por 📸@EldoGomes | Jornalista e YouTuber.